PARTE 2 - CONCLUSÃO

O coração de Anne batia descompassado enquanto abria a caixa.

Lá dentro não estava apenas uma coisa, estavam várias. Um livro azul, um lápis novo, uma fotografia antiga, uma carta dobrada e… pequenas borboletas que pareciam feitas de luz. Durante um instante, nada fez sentido.

Mas então tudo começou ao mesmo tempo.

As borboletas saíram da caixa e rodopiaram no ar, formando imagens: uma estrada, uma escola, um rosto que Anne quase reconhecia. O lápis caiu-lhe na mão como se a escolhesse. E a carta abriu-se sozinha.

“Tens apenas um desejo,… mas todos os teus sonhos vivem dentro de ti.”

Anne engoliu em seco. Sentou-se no chão e abriu o livro. As páginas começaram a preencher-se sozinhas. Histórias. Desenhos. Memórias. E uma letra que ela reconhecia.

A do pai.

As mãos começaram a tremer. Folheou mais depressa.

Ali estava tudo: a aldeia, a mãe… e depois o silêncio. O desaparecimento. A ausência que sempre ficou por explicar.

Uma lágrima caiu na página.

— Então… isto é verdade? — sussurrou.

Nesse momento, o mundo à sua volta distorceu-se.

Quando deu por si, já não estava ali.

Encontrava-se numa estrada estranha, com árvores de cores impossíveis, azuis, vermelhas, como se tivesse entrado num sonho.

— Estás no mundo dos desejos.

Anne virou-se. Estava ali um rapaz.

Olhos castanhos, sorriso fácil.

— Kevin — disse ele. — E eu… acho que sou o teu desejo.

Durante horas, ou talvez dias, Anne viveu tudo o que sempre quis: foi à escola, teve amigos, entrou numa sala de aula pela primeira vez, ouviu o giz no quadro, respondeu a perguntas, riu no recreio. Mas desta vez… não era só um sonho bonito.

Era real demais para ser apenas a sua imaginação.

— Porque é que isto parece tão verdadeiro? — perguntou Anne.

Kevin olhou para ela com seriedade.

— Porque isto não devia ser um sonho.

O mundo tremeu.

— A escola… não devia ser um desejo, Anne.

As palavras ficaram presas dentro dela.

E então, tudo se quebrou outra vez.

Anne voltou à floresta.

O homem da bicicleta estava lá.

— Foste tu… — disse ela, com a voz baixa.

Ele assentiu.

— Eu quis dar-te aquilo que te faltava,… mas também mostrar-te o que te roubaram.

— Eu só queria aprender… — murmurou Anne.

O homem fechou os olhos por um instante.

— Eu sei.

Silêncio.

Anne abriu o livro pela última vez.

A última página estava em branco.

Tinha apenas um desejo.

Podia pedir qualquer coisa.

Um mundo perfeito. Uma vida fácil. Nunca mais sofrer.

Mas não.

Desta vez… Anne pensou nos outros.

Nos que, como ela, viam o autocarro passar… sem nunca poderem entrar.

Pegou no lápis.

E escreveu.

As palavras brilharam na página:

“Que nenhuma criança tenha de sonhar com a escola, que a escola seja para todos.”

O mundo ficou em silêncio. Depois… mudou. Não com luzes. Nem magia. Mas com passos. Ao longe, o som de um autocarro. O mesmo. Amarelo. Mas desta vez… parou. A porta abriu-se.

E não era só para a Anne.

Eram várias crianças. De todos os caminhos. De todas as casas. Anne olhou para o pai… e, ao lado dele, a mãe.

Juntos. Outra vez.

Desta vez, sem desaparecer. Ela sorriu. E, sem hesitar, entrou. Porque, naquele dia, Anne não estava a entrar num sonho.

Estava, finalmente, a entrar onde sempre teve o direito de estar.

E, pela primeira vez…o mundo tinha aprendido com ela.